É quarta-feira, 07:35hs da manhã.
Um dia qualquer. Um dia comum. Um dia incolor. Sala 001.
_Que bela manhã! Pensou Lucas, o aluno mais bagunceiro da sala.
_Nossa, mais um dia chato! Pensou Celina, a aluna mais
esforçada.
_Eu queria ficar na cama para sempre! Expurgou ele.
_Que esse dia acabe! Condenou ela!
_Eu quero morr...
[A porta da sala é aberta vorazmente]
_Bem, classe, desculpem o atraso para iniciar a aula. O
professor de Ciências Sociais terá que se afastar por algumas semanas por
motivos pessoais, mas temos um substituto que vocês irão gostar.
[Entra um professor alto, magro, cabelos lisos até abaixo das orelhas, óculos
pequenos (daqueles redondos que ficam próximo da ponta do nariz), camisa com
mais ou menos 7 números acima do seu com as cores do arco-íris e um tique do
tipo ‘dar de ombros’ ou ’torcicolo’]
_Só pode ser gay! Pensaram os garotos mais catequizados com
a ideia de masculinidade.
_Olha só esse hippie! Pensaram os mais conservadores.
_Deve ser macumbeiro! Gritaram os pensamentos dos
religiosos.
_Ótimo! Mais um louco. Alguém disse baixinho para si mesmo.
Antes de suas primeiras palavras,
após toda a introdução do diretor que se retirou logo em seguida, inclinou a
cabeça para baixo olhando nos olhos de todos os alunos, um por um, expressando:
_Eu sei quem é você! Eu consigo enxergar e sentir a sua dor.
Toda essa angústia que você sente, tudo o que você está passando é passageiro,
não desista agora! Tudo o que você precisa é vencer essa estrada para mostrar
à, exclusivamente, você! Mesmo sendo essa dor física tão forte quanto a da
alma, você não está sozinho!
Após estas palavras, os alunos
emudeceram seus pensamentos. Então de dentro de uma volumosa mochila preta, retirou
uma caixa desmontada e a montou deixando-a sobre a mesa. Na caixa dizia “Caixa
dos desejos”.
Todos atônitos com tal situação incomum,
demonstraram naturalmente esboços faciais, mas o professor prosseguiu seu
cronograma ministrando e exercendo o papel que foi lhe dado como substituto,
porém uma aula sem aparentes diferenças do outro professor.
Durante suas observações sobre
conceitos individuais e coletivos sociais, o professor, em intervalos pequenos,
fitava discretamente os alunos demonstrando exclusividade em cada um. O que exprimiu
intenso conforto e desconforto, ao mesmo tempo, foram seus olhos que se
mantinham marejados sem derramar lágrimas.
Ao final da aula, que durou 1:30h em pleno silêncio, onde os pensamentos ainda mantinham brandos movimentos, soltou sua despedida sem, desta vez, direcionar seu olhar a ninguém:
Ao final da aula, que durou 1:30h em pleno silêncio, onde os pensamentos ainda mantinham brandos movimentos, soltou sua despedida sem, desta vez, direcionar seu olhar a ninguém:
_Você me viu, me olhou e sabe que eu sei dos seus problemas
e quero te ajudar porque eu me preocupo com você, mas preciso que você esteja
disposto a me ajudar também.
Após sair da sala, os alunos
tentaram voltar a sua normatividade corriqueira e, volta ou outra, passavam
pela caixa que permaneceu na sala para que percebessem do que se tratava, até
que viram que não passava de uma simples urna, com uma pequena fresta que,
provavelmente, seria para inserir bilhetes ou algo do tipo.
No intervalo daquela manhã, os
alunos se dispersaram por toda a escola, mesmo os melhores amigos. Os
bagunceiros sumiram da sala, os estudiosos fingiam estar estudando, os calados,
fingiam ler livros e foram os 15 minutos mais longos da história daquela turma.
Após o intervalo, o professor de Artes, assumindo seu horário, sugeriu uma dinâmica: Todos os alunos ficariam de costas para a frente da sala com apenas uma caneta e uma folha de papel, inclusive o próprio professor, enquanto cada aluno teria 20 segundos para ir na frente da sala, onde todos estariam de costas, retiraria um pequeno pedaço de papel de um pequeno copo descartável onde haveria o nome de um sentimento, e tentaria emitir sons que pudessem descrevê-lo enquanto os alunos enumeravam as apresentações correlacionando os alunos e qual possível sentimento seria, inclusive o seu, para permanecer na ordem correta.
Após o intervalo, o professor de Artes, assumindo seu horário, sugeriu uma dinâmica: Todos os alunos ficariam de costas para a frente da sala com apenas uma caneta e uma folha de papel, inclusive o próprio professor, enquanto cada aluno teria 20 segundos para ir na frente da sala, onde todos estariam de costas, retiraria um pequeno pedaço de papel de um pequeno copo descartável onde haveria o nome de um sentimento, e tentaria emitir sons que pudessem descrevê-lo enquanto os alunos enumeravam as apresentações correlacionando os alunos e qual possível sentimento seria, inclusive o seu, para permanecer na ordem correta.
A dinâmica durou aproximadamente 18
minutos até que todos a tivessem executado. Então o professor recolheu os
trabalhos e os comparou montando uma lista inteligente e a colocou na forma de
estatística no quadro. O professor de Artes finalmente explanou:
_Então, gente, percebemos o quão difícil é entender o que
não vemos e nem ouvimos com clareza, mas que com um pouco de atenção podemos
supor que há algo acontecendo, e que todos os sentimentos podem ser
compartilhados e com uma boa percepção, podemos nos esforçar para identificar o
que está acontecendo com quem nos cerca.
O professor virou-se para o quadro e colocou a lista dos sentimentos mais descritos através dos sons.
O professor virou-se para o quadro e colocou a lista dos sentimentos mais descritos através dos sons.
1-
Alegria – Palma (27 Acertos x 12 Erros)
2-
Desespero – Grito (35 Acertos x 4 Erros)
3-
Medo – Respiração Ofegante (38 Acertos x 1 Erros)
4-
Felicidade – Risos (29 Acertos x 10 Erros)
5-
Amando – Suspiro (37 Acertos x 2 Erros)
6-
Triste – Fungar (39 Acertos x 0 Erros)
7-
Negação/Desaprovação – Tsc Tsc Tsc (38 Acertos x
1 Erro)
8-
Ansiedade – Bater dos pés (Acertos x Erros)
9-
[Não descrito] (2 Acertos x 37Erros)
De todas os sentimentos expostos,
houve um, apenas um que foi silencioso, que se foi difícil de decifrar, mas que
por alguma razão, dois alunos acertaram. Tal sentimento se esconde atrás de
todos os demais, aquele que ninguém soube como expressar e ninguém soube
identificar, foi o que mais surpreendeu os alunos, tendo em vista que o número
de acertos destacou-se mais com os sentimentos negativos.
A aulas do dia haviam terminado,
todos se arrumavam para ir embora, porém ficou um que esperou estar sozinho na
sala, mas saiu após 3 minutos. Sem aparente motivo, afinal era o aluno-modelo.
O professor de Ciências Sociais buscou a caixa e a levou consigo_A semente estava plantada!
O professor de Ciências Sociais buscou a caixa e a levou consigo_A semente estava plantada!
No dia seguinte, o professor a
deixou no corredor, em posição estratégica, num ponto totalmente cego da dos
corredores da escola. Os pedidos “Posso beber água?” ou “Posso ir ao banheiro?”
foram mais frequentes que o normal nesta semana.
O final de semana estava se
aproximando, já era sexta feira, então todos os professores da escola solicitaram
estrategicamente que seus alunos escrevessem um texto falando sobre suas
expectativas para um país melhor.
Bem, o final de semana seria
agitado! Todos os professores se reuniram no sábado para um coffee break e
empenharam-se a ler todos os textos e associar suas letras aos “desejos” da
caixa e reconhecer seus respectivos autores.
...
...
A aula de artes foi um ponto
culminante para despertar a autonomia dos alunos, quase todos, se não todos,
que colocassem na urna seus desejos sem que ninguém os vissem, pois escreveram
em momentos que ninguém os viram_no intervalo daquela quarta-feira, nas idas ao
banheiro ou para beber água daquela quinta-feira, no final da aula da
sexta-feira.
A surpresa não surpresa daquele
final de semana incolor, foi encontrar o desejo da cor amarela, o desespero do
colorido, o mal educado azul escuro forte, o rosa sensível e vulnerável, o
branco sem precedentes, o vermelho forçado e o .
preto desbotado
A escola não propôs uma bandeira,
não propôs uma ideologia, não propôs um corromper imparcial. Propôs para si
mesmo o papel incansável de ensinar a colorir a própria vida, ora com a cor do
céu, onde olhamos somente se levantarmos a cabeça, ora com a cor dos inúmeros
pares de olhos.
A nossa cor não nos define,
define apenas o outro. Ouça o som, veja a cor e abrace esta causa!

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