Olhão nessa página

sábado, 23 de julho de 2016

Um churras daquele!


Daí, após 15 anos, eu pensei:
_Vou fazer aquele churras!

Já ganhava meus centos e poucos de assalariado orgulhoso.
Filhos em casa, mulher também. Saco! Eu queria beber e farrear!
Mas como não quis estressar a mulher, fiz o churras no condomínio de um conhecido da minha mulher que havia deixado a chave comigo_Que ótima oportunidade essa!
Queria beber! Queria reunir aquela galera velha guarda da adolescência que virava a noite por sabe lá onde até acabar a cachaça e as drogas e me abraçavam dizendo que eu era o melhor.
Queria carregar pelo menos um deles em agradecimento as vezes que me carregaram pra casa e me deixaram no chão do pátio para que minha mãe me colocasse pra dentro quando me visse.
Esse é o dia!
Regrar preço é uma ótima ideia para esses eventos com muitas pessoas, afinal, nós éramos inseparáveis 6 ou 8 amigos. Eles podem pensar em trazer umas gatas pra onda, então tem que pensar nisso tudo!
Mas o principal, e mais importante, a bebida!
Hoje eu já posso comprar cerveja ao invés de fazer aquele montinho com a galera e comprar o álcool mais barato, mas também dentro de um preço bacana.
Na minha abastada lista eu escolhi só os melhores para os meus amigos:
Carnes:
Bisteca de porco;
Linguiça mista;
Galeto;
e de quebra 1/2Kg de Calabresa apimentada.
Bebidas:
1 grade da cerveja do boteco do "Seu" Geraldo;
1 galão de sangria;
e uma garrafa de cachaça aberta que tinha em casa.

Em casa separei aquele velho repertório das músicas que ouvíamos pra dar aquela animada na galera e falei com o Tonho da rua de baixo pra arrumar aquela "parada" das boas.
A hora tava chegando e já tinha mandado mensagem para todos pelos números antigos que achei na agenda, mas só dois deles que deviam ter crédito pra responder e dizer que não poderia comparecer por alguma coisa de faculdade ou sei lá e o outro por algo de filhos, se não me engano.
Enfim, nada podia dar errado!
Fiz o fogo, pré assei algumas carnes pra deixar no ponto. O isopor estava cheio com o que se podia esperar dos velhos tempos, mas daí... já era noite quando meu repertório findou.
Ninguém havia aparecido e eu lembrei da minha mulher que ficou em casa triste com as palavras "EU vou e não sei que horas volto" e meus filhos adoentados.
Decidi começar e terminar sozinho aquilo quando, das nuvens de um passado mais passado, vi um amigo de infância, que estudou as primeiras séries comigo. Um homem sofisticado e bem arrumado pra uma sexta feira a noite falou comigo num patamar aportuguesado que eu nunca entenderia, mas depois se sentou sem pedir e disse:
_Como estás, meu amigo? Quanto tempo, heim?
_Bote tempo, nisso, bicho_Respondi grosseiramente sem intenção.
Conversamos e comemos, mas de acordo com seu tempo, bebemos o que eu só ouvia falar de socialmente.
Vivi o passado nas lembranças que saíam das nossas histórias e o futuro quando me falou de sua família e seus filhos e sabia que se me desse espaço ele me constrangeria por eu mesmo falar da minha vida.
"Que tarde!" pensei, estragando mais da minha vida até esses trinta e alguns tantos de vida solta.
Fui tão fase quando o vômito que saiu involuntariamente das bocas ressecadas de fumos baratos e agora lembrei que, no trabalho, comentaram sobre alguém que tinha morrido num acidente de carro bêbado e outro que havia sido assassinado por não pagar um empréstimo ilegal.
Não quis saber, porque fazia meu trabalho operacional chato do jeito mais enrolado possível querendo sair de lá, pôr a camisa no ombro e ir fumando um cigarro durante a longa caminhada pra casa.
Talvez eu reveja meus amigos, talvez não. Só espero que seja no presente... de preferência num jantar com a minha família.