Olhão nessa página

terça-feira, 31 de maio de 2011

Inibição


Queria te dizer que conhecia a Argentina

e que tinha um amigo corredor de fórmula um

e dizer que era personagem de uma peça de Mário Prata

e que havia jogado no Linense

com o estádio lotado.

Queria te contar lorotas

até que me achasse o maior

e me levasse pela mão

e me dissesse com gosto

que queria ouvir os meus casos

e aprender os meus truques.

Queria te encher de beijos

como em medalhinha de padroeira

e te fazer carinho

como em gato de armazém

e ler tua mão e decifrar tua letra

e te ensinar os segredos das pirâmides

e todas as declinações latinas

e, de quebra,

te falar um poema de amor.

Mas teus cabelos eram tão loiros

e teus olhos tão sofridos

que eu fiquei na minha

e só te disse "oi".



Sérgio Antunes

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Entre árvores que rangem


É, amigo, você está sozinho nesse mundo,
novamente como sempre quis estar.
Querer? Talvez você saiba o que estou dizendo,
você nunca prezou o que lhes oferecera,
dizendo o que queria, levando cada detalhe para as suas cenas,
armando cada detalhe para que tudo seja do jeito que "deve ser".
Bem, dessa vez foi um tanto diferente,
e você não consegue digerir que algo deu errado,
impõe a idéia de que está se testando, e observa seus próprios movimentos,
e não consegue se consertar, está tão quebrado que não admite.
Nesse vão que criou, você afunda cada vez mais,
você chora por dentro cada vez mais,
sua vida externa é fria e incolor,
porém agora você está no negro-luto
e toda aquela imagem, montada de cada detalhe está pendente,
você sobe nas palavras que ouviu e o orgulho te pesa e precipita...
O que te salvará agora? O que te sustentará agora?
Você, indigno, viverá ainda no lamento até o "suicídio" mental,
que você tanto teme, te transformar num qualquer, num ser igual...

terça-feira, 17 de maio de 2011

...e eu vivo nesse quarto de hotel até daqui a pouco(desvinculando)


"Tire a roupa..."
Despido do orgulho, você joga por nossas cabeças a inflexibilidade,
projeta as palavras e me atinge com o que você sabe fazer de melhor.
Aponta minha camisa com manchas de sangue e reza para o medo passar,
mas ele não passa e você se desespera...
_Calma, meu amor, eu nunca faria nada com você!
Em alguns momentos eu preciso ocupar minha mente com as palavras que eu sei,
infelizmente eu sei que você disse,
mesmo quando me propôs que ficasse,
mas esse meu caminho é indefinido e nada me impede de continuar
enquanto você pende na minha mente, nos meus momentos,
nas minhas sensações e não é assim fácil que eu posso te dissipar de mim.
Você dorme comigo e eu sinto o peso da sua dor,
mas sinto o mundo dos pés ao pescoço quando você respira suas meias-verdades
porque minha inteligência é controlada, mas é facilmente persuadida por você.
Ah, como seu corpo é perfeito! Que falta faz o cheiro do seu perfume
que compramos juntos,
daquelas vezes que saíamos, pois eu queria ver você sorrir comprando coisas...
Me prometa tudo o que não pode, teste esse ego abalado e de agora em diante
eu já nem sei o que posso fazer ou hesitar. Amanhã, talvez,
eu esteja no mesmo lugar fazendo as mesmas coisas,
ouvindo apenas uma música no 'repeat' escrevendo textos triviais,
e até isso me fere porque era você que os lia,
que aumentava meu ego com seus comentários deliciosos...
Eu durmo com sua imagem na cabeça,
sem posições certas para o encaixe que você era,
esse corpo clama pelo fim de tudo isso, ainda que queira tudo aquilo
Se tivéssemos ido, estaríamos com um belo caminho andado,
longe desse teatro...
Me fez Deus, Rei, libertou todos os meus medos,
disse que se fosse pra ser, seria e eu sempre acreditei,
descontando os adjetivos que te dei, valho as lembranças que creio serem verdadeiras,
enquanto isso, despojo dos abarrotados pensamentos seus.
[nada a declarar]
Essa impulsão me traz pra nós, me puxa e eu não posso parar,
esse já é meu limite, e eu nem sei se em euforia me desanuvio ao ar para o mundo...

sábado, 14 de maio de 2011

hora de caminhar sozinho!


...silêncio por toda parte, poucos passos, a ausência foi prostrada subitamente.
A respiração ofegante acabou... de vez!
O olhar marcante desmotivou, sua perspectiva está viva,
dentro da linhagem, tão forte por sinal que perdeu por morte parte de si,
pelo herói que fora sem dizer palavras para auto-salvação.
O que queiras para si, homem velho?
O corpo que antes moribundo, agora definitivo trouxe a agonia,
a teimosia que silente nos lençóis brandos e brancos,
os olhares vermelhos, dementes mentes desconfiguradas pelo momento.
Algum dia você mostrou o lado certo da vida,
do modo mais bruto e limitado que arrastou dos traços sanguíneos,
mas agora, você não tem mais sementes, você tem vestígios ambulantes
que dão continuidade no seu plano maquiavélico...
Antes fosse assim, de toda forma incerta, existir um ser que, canonizado agora,
deixasse o plantio andante na melhor terra.
Bem, essa viagem é quase eterna, e de quebra, você fez seu show,
e foi bem feito!!

_______"Ao herói seu."

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Adupé-lewô-olorun


Ele fumava dois ou três maços de cigarro forte por dia,
bebia desesperadamente a bebida nordestina_da mais pura,
Esperava todos os dias às 18hs algo se manifestar,
não que fosse de seu gosto, mas que direito sobre si tinha?
Duas ruas se cruzavam, era meia noite e o espírito teimava,
zombava dos que tinham medo, mesmo sem acreditar,
num dos lados havia sangue que seguia até seus pés,
cercado de velas, flores exóticas, nada a temer,
os deuses estão olhando por nós...
Batuque, potes com detritos, nada de sacrifícios,
alguma coisa faltou, a fé de alguém está abalada essa noite!!
O homem do bar, meio tonto derrubou seu copo,
em algum outro lugar um cigarro apagou, as luzes oscilavam,
passos cessavam, crianças dormiam, e a mata dançava ao vento,
mexia com brutalidade e uma tempestade chegava...
Os olhos virados, pés curvos, mãos que definiam e ninguém soltava comentários:
antes fosse respeito.
Os primeiros giros foram dados, os dedos estalam e sensações ultrapassam,
a mente está frágil, o corpo padece e um silêncio desesperador sai dos olhares piscantes...
Manhã! Sono... nada houve pra você ou pra qualquer um...
Todos viram seus rostos e vivem o dia porque não temem a claridade!

quarta-feira, 4 de maio de 2011

“ Ecce Homo” _ Século XX


Guerrilheiro. Prisioneiro.

Operário com bandeira

De liberdade.

Jazz. Jeans. Luz e som

Jovem em busca

de identidade.

Trabalho. Capital. Produção.

Alienação para

conseguir estabilidade

Amor. Paixão. Sexo na cama,

No teatro e na mente

Produzindo impotência.

Marxismo. Psicanálise. Pacifismo

Produzindo violência.

Angústia. Solidão. Carência

Suicídio com a televisão,

Fuga com espaçonave,

Defesa com ideologia,

Ilusão com adição,

Apelo à agressão:

“Ecce Homo” _ século XX...

não sabe para onde ir

se para os abismos do céu

se para o abismo de si;

não sabe a que aderir

se à guerrilha ideológica

se à guerrilha psicológica;

apátrida _ ideologizado,

órfão de pai _ psicanalizado,

órfão de Deus _ intelectualizado.

Não sabe qual

o sentido da flor,

não sabe qual

o sentido do amor,

não sabe qual

o sentido da dor,

com traumatismo de ser

perdeu conta do seu ser!

“Ecce Homo” _ Século XX!



Retirado do livro Logoterapia-a psicologia do sentido da vida